sexta-feira, julho 29, 2005

Baptismo de Mergulho

Bem poderia começar este pequeno relato, em jeito de desabafo, por “Salve o dia 29 de Julho de 2005”, porque, de facto, este foi um dia memorável e digno de registo, por marcar o meu Baptismo de Mergulho e o do Nuno. È o pequeno pronome possessivo que me obriga a proceder a este registo, por pretender fazer perdurar eternamente um acontecimento que sempre considerei impossível, isto nas poucas vezes em que me atrevi a pensar nele! Eu a mergulhar!? Eu a mergulhar no mar!!!??? Ainda me soa a sandice, mas a verdade é que aconteceu, ainda sinto dificuldade em encontrar palavras fiéis às emoções sentidas, mas a verdade é que elas são muitas, bem fortes e bem presentes.
Foi um culminar de uma luta árdua da minha parte, uma batalha contra mim e contra todos os fantasmas e terrores que pululavam no meu inconsciente. Daí ainda sentir uma certa dificuldade em ver-me como vencedora deste combate, diria até, batalha tão cruel e desgastante. Contudo, se a felicidade é enorme por causa desta vitória, maior se torna porque neste pódio mais duas pessoas merecem o lugar cimeiro: O Nuno e o Tó. O primeiro pela força constante, pela confiança a cada hesitação minha e pela persistência que tão bem o caracteriza, o segundo; pela paciência infindável, pela compreensão, pela mão amiga e constante que sempre me acompanhou a cada exercício na piscina, a cada momento de alegria ou tristeza, pela verdadeira pedagogia e, sobretudo, pela amizade…
O dia amanheceu um pouco enublado, mas os teimosos raios de sol iam brilhando cada vez mais. Esperei pela chuva, porque os medos, que me acompanharam durante as últimas semanas, assim o exigiam, mas as condições atmosféricas eram das mais favoráveis para o mergulho. Entrariamos pela praia e à medida que ia ficando pronta para cair na água o meu coração palpitava cada vez mais forte. O tubo e a mascara aceleraram ainda mais as batidas cardíacas e à medida que me sentia afastar da praia começava a convencer-me de que não seria capaz. As algas iam crescendo, a areia começava a deixar de se ver e o meu cérebro processava informação a uma velocidade incrível. Em poucos segundos era capaz de pensar numa séria de medos e de receios. Pedi ao Tó para não nos afastarmos mais, pois cada vez sentia maior dificuldade em respirar. Senti-me roçar levemente a fronteira da desistência, mas o olhar carinhoso do Nuno e a força que emanava da atenção e dos cuidados do Tó deram um nó cego nos meus medos e numa fracção de segundo dei comigo a convencer-me da força que tinha e do desejo que sentia de descobrir o tal novo mundo, criado também para mim, acerca do qual um experiente mergulhador e pedagogo me havia falado. Eu merecia essa descoberta e os meus dois companheiros de mergulho mereciam a minha confiança. Desta forma, fiz aquilo que o Tó sempre me pediu. Enquanto esvaziava o ar do colete parecia-me ouvir dizer “Entrega-te, Margarida!” e eu entreguei-me.
Com a mão forte e tranquilizadora do Tó, que à minha frente ia desbravando caminho, e o olhar atento do Nuno, que seguia as “minhas” barbatana novas, senti-me viajar pela imensa floresta cheia de cor. Fiquei deslumbrada com tamanha beleza e estarrecida com tal dimensão! Tive uma estrela na minha mão e via caminhar tranquilamente nela, fiquei deslumbrada pela imensidão de cores e pela cativante e imensa claridade, porque sempre imaginei um fundo do mar escuro e sombrio. Era uma criança na descoberta de um mundo desconhecido e de novos comportamentos. Simultaneamente senti-me peixe, ave, alga, estrela, até água. Agradeci a Deus por ter criado num mundo tão belo, por me ter concedido ter conhecido um pouco mais dele e pelos dois companheiros que partilhavam aquele momento comigo.
Completamente eufórica pelo momento e desejosa de agradecer a confiança dos meus companheiros, atrevi-me a aceitar o desafio de tirar a máscara. Logo que me consegui equilibrar no fundo do mar, a 7 metros de profundidade, tirei corajosamente a máscara, mas, ao colocá-la, atrapalhei-me completamente e, nervosa, fiquei com dificuldades em respirar. Imediatamente senti a mão cuidadosa e protectora do Tó a encher o meu colete e levar-me rapidamente para a superfície. Tal protecção contribuiu para que paulatinamente me fosse acalmando. Reunidos os três à superfície e esclarecida a situação, rapidamente imergimos novamente e o sonho regressou.
Infelizmente o Tó estava com pouco ar, o que afligia o meu coração, não me deixando sentir as coisas já com a mesma intensidade de alguns minutos atrás, mas quando ele deu a ordem para subirmos, a tranquilidade voltou, porque senti que tudo ficaria bem, e foi nessa viagem de regresso que experimentei um dos melhores momentos desse dia. Enquanto ia enchendo o colete e me aproximava da superfície, sentia-me invadida por um azul, intenso e brilhante. O sol reflectia na água e dotava-a de um dourado maravilhoso, povoado por imensas bolinhas provenientes da minha respiração. Senti-me no paraíso. Fosse eu capaz de dominar melhor o meu equilíbrio e teria parado a meio desta viagem para ficar inundada deste azul e deste brilho durante mais tempo!
Reunidos à superfície, senti o orgulho do Tó no meu desempenho e a meiguice que transbordava das palavras do meu marido. Yes, tinha conseguido! Mas a pior parte estava ainda para vir. Nadar cerca de 200 metros até à praia. Quantas vezes me apeteceu desistir. Ufa, mas consegui. Agora sim, tinha enfrentado o Adamastor!
Estava radiante e feliz, mesmo quando o Tó me obrigou a carregar a minha garrafa até ao carro, sendo ela a mais pesada das três. Estava tão feliz que sentia capaz de levar os dois ao colo. Só ansiava por me ver livre de um fato que começava aquecer demasiado ao sol que com toda a força também tinha vindo festejar comigo. Mas o desejo de festejos rapidamente se desvaneceu ao descobrirmos o carro assaltado e os nossos bens roubados. Outras e muitas preocupações nos invadiram e o baptismo de mergulho ficou por momentos esquecido. Mas a emoção ficou bem guardada no meu coração e um abraço forte do Nuno comprovou um orgulho na minha coragem. Todos os acontecimentos que se sucederam apenas contribuíram para tornar esse dia e esse momento em particular eternamente memorável.
Apesar de tudo, não posso esconder o receio que ainda sinto ao ouvir falar do próximo mergulho, nem me sinto capaz de assegurar que o farei, mas estou muito feliz e confio plenamente no Tó. Numa das primeiras aulas ele disse-me que os seus melhores amigos tinham sido encontrados no mergulho…Como eu o compreendo!
MM